h1

O Mundial da TV

Julho 13, 2010

Desde o apito inicial a 11 de Junho até à entrega do troféu ao espanhol Iker Casillas a 11 de Julho, a equipa que compõe o projecto “Jornalismo e Cidadania” esteve a analisar todas as emissões televisivas relacionadas com o Mundial de Futebol da África do Sul. Ao longo dos trinta dias de duração da prova, foram analisados 604 programas emitidos pelos três canais generalistas e pelas três estações de notícias por cabo. Do lado das emissões em sinal aberto, analisámos todos os conteúdos informativos. Em relação às emissões em sinal fechado, foram estudadas as emissões dos programas especificamente criados para o Mundial de futebol e dos fóruns de discussão, quando em debate estavam temas relacionados com a prova.

O telespectador afastado do debate futebolístico

As conclusões do nosso estudo mensal apontam para algumas tendências claras ao nível da impermeabilidade das emissões de televisão à participação dos telespectadores. Em 604 emissões, o telespectador apenas foi integrado na emissão em 84. Quer isto dizer que em apenas 13,9% das transmissões televisivas foi promovida a inclusão do telespectador na emissão. Neste ponto, convém esclarecer que por integração do telespectador entendemos momentos em que a emissão passa para o telespectador, seja pela participação directa, via telefone ou e-mail, seja através de mensagens publicadas em sítios na internet que são depois exibidas em antena.

Parece evidente, então, que existe uma fraca cultura de integração directa do telespectador na emissão televisiva em Portugal. Os fóruns dos canais temáticos, como o “Opinião Pública” da SIC Notícias são um exemplo de uma plataforma de integração do telespectador, tal como o “À Noite o Mundial” da RTPN, ainda que neste caso de forma menos livre e mais condicionada que no exemplo anterior.

Uma outra conclusão que se pode retirar é que apenas os canais temáticos integram nas suas emissões o telespectador. Em nenhuma das 386 emissões estudadas nos canais generalistas houve a abertura de um canal de participação para os cidadãos. Tendo em linha de conta que são estes os canais com maior difusão e audiência, não deixa de ser paradoxal compreender que são estes também os canais que mais fecham as portas aos telespectadores.

Ainda em relação à integração do telespectador, destaque para a RTPN que foi a única estação que emitiu um número de conteúdos que promoviam a integração superior ao número de programas que excluíam a participação do público. Para este facto muito contribuíram as emissões da “Antena Aberta” e os ténues canais de comunicação estabelecidos entre o À Noite o Mundial e os seus telespectadores.

Os jornalistas com via verde para os plateaux informativos

Tal como no que diz respeito à integração do telespectador, também a presença dos convidados em palco ficou aquém do que seria inicialmente expectável. A preferência pelo formato de noticiário curto e sintético, como o “Diário do Mundial” da SIC e SIC Notícias, pode explicar a ausência de convidados na esmagadora maioria das emissões.

Nos 604 programas estudados, em 431 (71%) não houve lugar para a presença de um único convidado para debater as incidências do Mundial.

Nas 173 emissões que abriram o seu estúdio às pessoas, a maioria (86) dos programas optou pelo formato com entre dois e cinco convidados, seguido de perto pelo modelo que contempla apenas um convidado (79). O formato com entre cinco e dez convidados registou apenas 7 casos, enquanto que em apenas um momento houve lugar para mais de dez convidados: o “Prós e Contras”, da RTP1, de 14 de Junho.

A quase totalidade dos convidados pertence ao sexo masculino (358). Neste ponto parece ficar claro que ser mulher é, à partida, uma condição que inviabiliza a presença nos palcos de debate futebolístico.

A grande maioria dos convidados (295) apresenta uma ligação ao desporto rei, enquanto que apenas 71 pessoas sem qualquer ligação, pelo menos formal, ao futebol foram chamadas a debater as ocorrências da prova. A este nível poderíamos supor que as televisões preferiram dar voz aos “especialistas” na análise futebolística em vez de dar a oportunidade aos “adeptos” de discutirem as incidências do Mundial.

Em relação à origem geográfica dos convidados, residir na área da Grande Lisboa continua a ser um factor chave no momento de ser convidado para um programa de televisão. Duzentos e trinta e oito dos 366 convidados a programas dedicados ao Mundial eram residentes na capital, tendo o Norte, a segunda região mais representada, ficado muito longe com 96 convidados. Neste ponto destaque para o facto de o número de participações de convidados da América do Sul (22), no caso o Brasil, ter sido superior ao das restantes regiões do país combinadas (as regiões Centro e Algarve, as únicas representadas para lá do Norte e da Grande Lisboa, apenas totalizam 10 convidados).

O último parâmetro de análise na caracterização dos convidados tem a ver com a sua profissão. E neste patamar não restam dúvidas que ser jornalista desportivo é meio caminho andado para se ser convidado para ir à televisão falar de futebol: 214 dos 366 convidados (58,4%) eram jornalistas ou comentadores desportivos. De realçar a fidelidade que cada uma das estações mostrou para com os seus comentadores, sendo que tanto a RTP1, como a SIC e a TVI, mantiveram um lote praticamente fixo de comentadores ao longo de todo o mês.

Para além dos jornalistas, também os ex-futebolistas (55) e treinadores (38) foram bastante requisitados para debater os acontecimentos na África do Sul. De entre as profissões afastadas dos holofotes dos estádios, destaque para as pessoas ligadas à indústria cultural que com 12 registos foi a quarta área funcional mais representada nos ecrãs portugueses.

A eliminação precoce da equipa portuguesa pode também ter contribuído para o número reduzido de convidados e telespectadores no ar. Após a derrota de Portugal com Espanha, o número de programas generalistas dedicados ao Mundial decaiu abruptamente, tal como os convidados dos programas temáticos. Para além da derrota lusa, também o arranque da pré-temporada das equipas portuguesas contribuiu para uma certa diluição dos temas do Mundial, sendo que em algumas emissões temáticas muito tempo foi passado a discutir os treinos e as transferências dos clubes nacionais.

O triunfo do noticiário rápido

Em apenas 33 emissões os canais em sinal aberto trouxeram pessoas a estúdio para debater o Mundial. Um número que contrasta fortemente com as 140 emissões dos canais temáticos que lançaram convites para a participação na emissão. Ainda assim, em ambas as plataformas, sinal aberto e cabo, o mais habitual foi sempre a inexistência de convidados.

Neste particular, convém sublinhar um canal que foi a excepção que confirma esta regra. Em todas as emissões em que debateu o Mundial, a TVI24 contou sempre com convidados em estúdio para abordar a prova. Num cenário de isolamento mediático, não deixa de ser assinalável este desempenho do canal de notícias da estação de Queluz de Baixo.

Para este Mundial, tanto a SIC como a RTP prepararam dois programas que respondem a um formato alternativo: o noticiário rápido, de síntese que em poucos minutos expõe aquilo que de mais importante se passou no Mundial naquele dia em particular. O triunfo desse modelo é uma das principais conclusões a retirar deste estudo.

De longe, o noticiário foi o género mais popular. Das 604 emissões, 473 obedeceram ao formato convencional do pivot a apresentar um bloco de notícias. No cruzamento dessa variável com a duração, concluímos que 45% (213) dos noticiários apresentados tiveram uma duração até aos 30 minutos (107 com duração até 15 minutos e 106 com duração compreendida entre os 15 e os 30 minutos).

Ainda ao nível da duração dos programas, destaque para o facto de em nenhuma emissão com duração até 15 minutos ter sido chamado um convidado a estúdio. Das 109 emissões que respeitaram esse intervalo temporal, nenhuma estendeu um convite sequer para participação em estúdio. No extremo oposto, os formatos com duração entre os 30 e os 60 minutos foram aqueles que mais contaram com a participação de convidados: 89.

Em síntese, analisando a cobertura que as televisões portuguesas fizeram do Mundial, e respeitando os parâmetros de análise acima mencionados, concluímos que a abertura ao telespectador é residual e, quando existe, controlada e que a vitória de um novo género informativo, o noticiário rápido, precipitou a queda do número de convidados em emissão. Ainda assim, quando a duração da emissão permitiu o intercâmbio comunicacional entre o pivot e, pelo menos, mais uma pessoa, a escolha recaiu, principalmente, sobre os jornalistas e comentadores do fenómeno desportivo.

Anúncios
h1

Nem a crise na selecção serve para convocar o telespectador

Julho 2, 2010

Os dias 29 e 30 de Junho ficaram marcados pelo Portugal X Espanha dos oitavos de final da prova. A derrota portuguesa foi acompanhada por uma série de momentos de discussão e reflexão em torno do futuro da Selecção e do respectivo treinador Carlos Queiroz. Contudo, esses espaços permaneceram longe do raio de participação do telespectador.

Olhando para esses dois dias turbulentos de Portugal na África do Sul, verificamos que os canais generalistas e informativos colocaram no ar 46 emissões dedicadas à discussão da derrota portuguesa e às confusões ocorridas entre os elementos da comitiva lusa após o desafio. Ora, em apenas 11 dessas emissões houve abertura para a participação do telespectador e através dos canais habituais – fóruns de participação das estações temáticas. O e-mail, o telefone e as redes sociais continuam a ser os canais de comunicação facultados em maior número aos telespectadores.

Já no que toca à presença em estúdio dos convidados, as conclusões também não variam muito em relação às anteriores observações. Em apenas 18 das 46 emissões houve lugar para a presença de um convidado em estúdio. E, tal como a análise semanal nos mostra, os jornalistas continuam a ser a classe profissional mais requisitada para ir à televisão discutir o Mundial.

Entre os 36 convidados presentes em estúdio, 20 eram jornalistas. Nenhuma outra classe profissional se aproxima sequer desse número, estando os treinadores (6) e os ex-futebolistas (5) em segundo e em terceiro lugares na lista das profissões mais requisitadas para comentar o futebol.

A origem predominante dos convidados das televisões nos dias 29 e 30 para discutir o futebol é a Grande Lisboa (25). Apenas 9 convidados eram oriundos do Norte de Portugal, sendo que a região Centro e, no plano internacional, a América do Sul contam com um convidado cada. A maior parte dos convidados  foram do sexo masculino (35) e estão ligados ao futebol (27).

h1

O Mundial da TV

Julho 2, 2010

A terceira semana de análise das emissões televisivas dedicadas ao Mundial da África do Sul não revelou novas tendências. Pelo contrário, reforçou as conclusões das semanas anteriores no que à participação do telespectador e à presença de convidados em estúdio diz respeito.

Analisadas as emissões compreendidas entre 26 de Junho de 2010 e as 10h do dia 2 de Julho de 2010, e tendo em conta os conteúdos emitidos pelos três canais generalistas e os três canais temáticos de informação, verificámos que o telespectador continua ausente do debate televisivo. Nas 124 emissões estudadas, em apenas 22 foram abertos canais de participação para o telespectador, a maior parte através dos meios habituais – fóruns e programas de debate nocturnos dos canais temáticos.

Em relação à presença de convidados nos programas, a terceira semana de estudo reforça ambas as tendências verificadas anteriormente. Primeira: o número de emissões que conta com a participação de convidados é inferior àquelas que não têm mais ninguém em estúdio para lá do pivot. Segunda: quando existe espaço para a presença de uma outra figura na emissão, por norma o convidado é jornalista.

Nas 124 emissões estudadas, mais de metade (67,7 % o que corresponde a 84 emissões) não abriu lugar a qualquer convidado em estúdio. E, nos casos em que foram chamados novos actores aos plateaux de informação, o mais comum foi a presença de jornalistas no cenário. De entre os 85 convidados, 49 eram jornalistas, de longe a profissão mais chamada para discutir o Mundial. Treinadores e ex-futebolistas completam o pódio das profissões mais solicitadas nas tertúlias futebolísticas da televisão portuguesa em tempo de Mundial.

Para além de jornalista, o típico convidado dos programas onde em cima da mesa está o Mundial vem da Grande Lisboa (55), tem uma ligação directa ao mundo do futebol (67) e é homem (83).

h1

A televisão em dia de jogo

Junho 28, 2010

No dia 25 de Junho Portugal encerrou a sua participação na fase de grupos do Mundial da África do Sul. Ora, nesta primeira etapa a Selecção Portuguesa participou em três desafios: a 15 de Junho contra a Costa do Marfim, a 21 de Junho contra a Coreia do Norte e a 25 de Junho contra o Brasil. Naturalmente, em cada um desses dias as estações televisivas portuguesas, em particular a RTP1, detentora dos direitos de transmissão dos jogos dos Navegadores, prepararam alinhamentos diferentes dos habituais precisamente para embalar o telespectador no pré e no pós jogo. Eis aqui um retrato televisivo de cada um desses dias.

Portugal X Costa do Marfim

No dia 15 de Junho analisámos 26 emissões informativas, registando que, no dia da estreia de Portugal no Mundial, o número de emissões que recorreram a convidados em estúdio foi superior às que não tiveram ninguém para falar do jogo. Em 53,8% dos casos, houve pelo menos um convidado chamado a comentar a partida, quer antes (em jeito de antevisão), quer após o apito do final do árbitro (para fazer o rescaldo do empate entre as duas equipas).

Nessa terça-feira, estiveram nos plateaux dos diferentes canais televisivos 24 convidados para discutir a partida. Os jornalistas foram, de longe, os mais requisitados para fazer o seu comentário, somando 15 presenças. A segunda categoria mais solicitada foi a dos ex-futebolistas, que reuniram apenas 4 presenças. Preferencialmente oriundos da zona da Grande Lisboa, os convidados dos programas informativos no dia da estreia da equipa portuguesa no Campeonato do Mundo foram, na esmagadora maioria, homens com uma ligação directa ao desporto rei.

Em linha com as conclusões semanais, o telespectador continua ausente da antena televisiva. Em apenas cinco programas informativos emitidos ao longo do dia houve lugar para a participação directa do telespectador na emissão. As televisões continuam sem apostar na integração de conteúdos de outras plataformas: das 26 emissões, apenas duas fizeram isso.

Portugal X Coreia do Norte

Sendo certamente um dia memorável na história do futebol português, o jogo Portugal-Coreia não provocou mudanças na mediatização que se vem fazendo deste Mundial. Nas 25 emissões analisadas nesse dia, o telespectador apenas foi convocado para participar em 8 delas. Apesar de ser um número um pouco superior à média semanal, não deixa de ser um valor baixo tendo em conta tratar-se de um dia de jogo da Selecção Portuguesa e do resultado ter sido uma retumbante vitória que, por certo, provocou alguma euforia entre os adeptos.

Em relação aos convidados, a tendência mantém-se, ainda que, no dia do jogo contra a Coreia, o número de emissões sem convidados ter sido superior às emissões com convidados. Contudo, a diferença é mínima (apenas 1) e em 25 emissões 13 foram conduzidas sem comentadores em estúdio enquanto que 12 contaram com o input de personalidades chamadas para o efeito. No dia da goleada à equipa coreana, foram chamados a estúdio 24 convidados, todos do sexo masculino, a quase totalidade oriunda da Grande Lisboa (20) e a maior parte (75%) com ligação directa ao futebol. Na sua grande maioria (58%), os convidados foram jornalistas especializados em desporto.

Ao nível da integração de outras plataformas, o único registo dessa inclusão nas 25 emissões é o À Noite o Mundial da RTPN.

Portugal X Brasil

Apesar de inicialmente ser considerado o desafio de maior cartel para a primeira fase da prova, o jogo entre Portugal e Brasil foi aquele que teve menos emissões de antevisão e rescaldo (23).

Na linha daquilo que já tinha acontecido no dia do jogo com a Costa do Marfim, também neste 25 de Julho o número de emissões com a presença de convidados foi superior ao número de emissões desenvolvidas apenas com o pivot em estúdio. Das 23 emissões televisivas do dia do confronto entre as equipas de Carlos Queiroz e de Dunga, apenas 9 não contaram com a presença de qualquer convidado.

Foram 27 as pessoas que passaram pelos canais televisivos para falar do Portugal X Brasil que fechou o Grupo G do Mundial 2010. Desse lote, destacam-se os jornalistas que, em linha com o verificado em anteriores dias de jogo, foram a classe mais requisitada para falar sobre esse e outros jogos da competição (18). Tal como no jogo anterior, todos os convidados eram homens e a grande maioria (20) com uma ligação profissional ao tema em debate.

Tal como nas restantes análises, também neste dia o telespectador ficou afastado da emissão. Em apenas 4 das 23 emissões estudadas foram abertos canais de participação para o telespectador. Neste dia, voltou a haver apenas um registo de integração de novas plataformas e, mais uma vez, a responsabilidade por essa ocorrência pertence ao À Noite o Mundial.

h1

A voz do telespectador continua longe da África do Sul

Junho 28, 2010

A última sexta-feira marcou o final da fase de grupos do Mundial de Futebol da África do Sul. Para além disso, marcou também a segunda semana de análise das emissões televisivas desenvolvida pela equipa do projecto “Jornalismo e Cidadania”, que está a estudar a participação dos telespectadores nos conteúdos dedicados ao Mundial. De uma semana para a outra, os dados obtidos são semelhantes. Os canais apostaram, praticamente, nos mesmos formatos e repetiram grande parte dos intervenientes nas discussões em estúdio. O telespectador continuou fora de jogo…

Assim, a nossa análise estende-se agora entre as 15h de 11 de Julho de 2010 até ao final da noite de 25 de Julho de 2010. Continuamos a olhar para todas as emissões informativas dos três canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) e para os programas de participação do telespectador e dedicados exclusivamente ao Mundial dos canais temáticos de informação (SIC Notícias, RTPN e TVI 24). Em relação à anterior análise, o universo de investigação aumentou em 152 emissões, totalizando agora 300 emissões estudadas.

O adepto não entra na discussão…

As opiniões dos telespectadores são quase inexistentes no universo dos programas informativos do panorama televisivo português. Nas 300 emissões estudadas, em apenas 48 houve lugar para a participação do telespectador, normalmente através do telefone (nos programas do tipo “fórum” dos canais temáticos) ou de e-mail (nos fóruns, mas também em alguns espaços de discussão à noite, como o À Noite o Mundial, da RTPN).

… e o convidado entra, mas pouco

Em relação aos convidados, os números apontam para uma maior abertura, mas esta não é excessiva. Nas 300 emissões analisadas, em 202 não houve lugar para a presença de qualquer convidado em estúdio. Tal como referimos na semana passada, a este facto não deve ser alheia a preferência dos canais portugueses pelos noticiários onde apenas tem lugar o pivot. Quando a emissão se abre aos convidados, o mais habitual é a presença de apenas um. Os dados mostram que em 50 por cento dos casos a escolha recai apenas sobre um convidado, por norma um comentador residente no canal, que faz a sua leitura dos mais diversos aspectos do Mundial. O programa Prós e Contras (RTP1) do dia 14 de Junho continua a conter o único registo com participação de mais de dez convidados, ao passo que conteúdos como o Mais Mundial da TVI 24 são exemplos de cenários que se compõem com um número de convidados entre os 2 e os 5.

Os plateaux não se enchem de gente do desporto

É verdade que a maior parte daqueles que vêm a estúdio tem uma relação com o mundo do desporto, mas a maior parte deles não são desportistas. Uma percentagem muito significativa dos convidados são jornalistas/comentadores. O grupo das pessoas do campo do desporto (futebolistas ou ex-futebolistas, dirigentes desportivos, treinadores ou praticantes de outras modalidades) perfez, nestes dias, 39 por cento dos convidados. À semelhança da primeira semana da nossa análise, os homens continuam a ter prioridade quase absoluta. E quem mora em Lisboa tem sempre mais oportunidade de dizer o que pensa.

h1

Atrás do Mundial de Futebol

Junho 18, 2010

O projecto “Jornalismo e Cidadania” vai andar, por estes dias, atrás dos programas de informação que falem do Campeonato do Mundo de Futebol da África do Sul. Queremos, acima de tudo, saber quem são os convidados dessas emissões e que estratégias aí são desenvolvidas para integrar o telespectador nos alinhamentos construídos.

Começámos a nossa análise no dia 11 de Junho de 2010, às 15h00 (momento de arranque da prova), e fizemos o primeiro ponto da situação, tendo em conta a programação emitida até às 15h00 do dia 18 de Junho de 2010. Nos canais generalistas (RTP1, SIC e TVI), procurámos analisar todos os programas de informação. Nos canais temáticos (SICN, RTPN, TVI 24), detivemo-nos nos formatos temáticos de futebol e nos formatos generalistas (fóruns de discussão), quando as respectivas emissões se centraram neste desporto. A nossa análise totalizou 148 emissões.

Esperávamos mais abertura à participação do público. Mas ainda vamos na primeira semana do Mundial…

Telespectadores excluídos da TV do futebol

Embora feitos para captar o interesse do público, a verdade é que os telespectadores continuam fora dos alinhamentos dos programas de informação que têm o Mundial de Futebol como mote. Das 148 emissões analisadas, apenas 23 integram quem vê televisão e quer participar. Destacam-se aqui os habituais programas que abrem completamente a emissão aos telespectadores (através da participação por telefone, por exemplo) e aqueles que prevêem a participação por outros meios (blogues, mails, entre outros), como é o caso de À Noite, o Mundial (RTPN). O e-mail e o telefone são os meios mais utilizados.


Plateaux sem convidados

Grande parte dos programas do Mundial não tem um formato aberto a convidados. O mais habitual é encontrarmos apenas o apresentador em estúdio. Sozinho. A preferência pelo género noticiário e por emissões de curta duração pode ajudar a explicar esta ausência de convidados em mais de 68% das emissões informativas. Há apenas uma excepção a esta tendência de não trazer ninguém a estúdio ou apenas trazer um convidado (16.9% das emissões): o Prós e Contras da RTP1 que, no dia 14 de Junho, debateu o futebol com mais de uma dezena de convidados.

Quem tem acesso aos plateaux dos programas que falam do Mundial?

* Jornalistas/analistas, ex-futebolistas e treinadores são as categorias profissionais mais solicitadas para participar em programas de informação sobre o futebol. As restantes categorias são em número reduzido.

* Grande parte dos convidados que vêm a estúdio falar de futebol têm uma ligação profissional ao próprio campo. Apenas 16.4% das pessoas têm profissões sem relação directa com o desporto (são escritores, actrizes, autarcas…).

* São, sobretudo, masculinas as vozes que falam de futebol: 95.6% dos convidados são homens. O discurso feminino é muito residual e pertenceu, neste tempo, às seguintes mulheres: Ana Candeias, Inês Pedrosa, Judite França e Patrícia Tavares. A TVI foi o canal que, em tempos de transmissão de futebol em canais concorrentes, valorizou a presença feminina em estúdio.

* Mais de metade dos convidados (64.8%) são oriundos da zona da Grande Lisboa; 27.4% são do norte. Quem vive no resto do país tem um acesso limitado aos plateaux do futebol

A progressiva visibilidade dos cenários virtuais

Os campeonatos de futebol constituem-se, por norma, como excelentes oportunidades para as televisões ensaiarem novas formas de dar a ver a informação desportiva sobre estes eventos mediáticos. Neste Campeonato do Mundo de Futebol, não têm havido propriamente surpresas ao nível da forma. No entanto, as empresas televisivas têm experimentado pôr no ar os seus programas em cenário virtual. É claro que temos de reconhecer que a maior parte das emissões continua assente em cenários reais, mas o estúdio virtual começa a ocupar um espaço cada vez maior no ecrã de TV, principalmente nos canais temáticos de informação.

Novas tecnologias afastadas do Mundial

O advento das novas tecnologias poderia significar um reconhecimento de novas plataformas para a emissão de conteúdos. No entanto, aquilo que se verifica é um fechamento dos programas de informação às novas plataformas digitais. Em 148 emissões estudadas, apenas 9 efectuaram esse cruzamento com plataformas digitais. Neste campo, convém destacar o À Noite o Mundial, da RTPN, como o conteúdo informativo que mais longe vai na integração destas novas possibilidades comunicativas no alinhamento da sua emissão.