Archive for Junho, 2010

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A televisão em dia de jogo

Junho 28, 2010

No dia 25 de Junho Portugal encerrou a sua participação na fase de grupos do Mundial da África do Sul. Ora, nesta primeira etapa a Selecção Portuguesa participou em três desafios: a 15 de Junho contra a Costa do Marfim, a 21 de Junho contra a Coreia do Norte e a 25 de Junho contra o Brasil. Naturalmente, em cada um desses dias as estações televisivas portuguesas, em particular a RTP1, detentora dos direitos de transmissão dos jogos dos Navegadores, prepararam alinhamentos diferentes dos habituais precisamente para embalar o telespectador no pré e no pós jogo. Eis aqui um retrato televisivo de cada um desses dias.

Portugal X Costa do Marfim

No dia 15 de Junho analisámos 26 emissões informativas, registando que, no dia da estreia de Portugal no Mundial, o número de emissões que recorreram a convidados em estúdio foi superior às que não tiveram ninguém para falar do jogo. Em 53,8% dos casos, houve pelo menos um convidado chamado a comentar a partida, quer antes (em jeito de antevisão), quer após o apito do final do árbitro (para fazer o rescaldo do empate entre as duas equipas).

Nessa terça-feira, estiveram nos plateaux dos diferentes canais televisivos 24 convidados para discutir a partida. Os jornalistas foram, de longe, os mais requisitados para fazer o seu comentário, somando 15 presenças. A segunda categoria mais solicitada foi a dos ex-futebolistas, que reuniram apenas 4 presenças. Preferencialmente oriundos da zona da Grande Lisboa, os convidados dos programas informativos no dia da estreia da equipa portuguesa no Campeonato do Mundo foram, na esmagadora maioria, homens com uma ligação directa ao desporto rei.

Em linha com as conclusões semanais, o telespectador continua ausente da antena televisiva. Em apenas cinco programas informativos emitidos ao longo do dia houve lugar para a participação directa do telespectador na emissão. As televisões continuam sem apostar na integração de conteúdos de outras plataformas: das 26 emissões, apenas duas fizeram isso.

Portugal X Coreia do Norte

Sendo certamente um dia memorável na história do futebol português, o jogo Portugal-Coreia não provocou mudanças na mediatização que se vem fazendo deste Mundial. Nas 25 emissões analisadas nesse dia, o telespectador apenas foi convocado para participar em 8 delas. Apesar de ser um número um pouco superior à média semanal, não deixa de ser um valor baixo tendo em conta tratar-se de um dia de jogo da Selecção Portuguesa e do resultado ter sido uma retumbante vitória que, por certo, provocou alguma euforia entre os adeptos.

Em relação aos convidados, a tendência mantém-se, ainda que, no dia do jogo contra a Coreia, o número de emissões sem convidados ter sido superior às emissões com convidados. Contudo, a diferença é mínima (apenas 1) e em 25 emissões 13 foram conduzidas sem comentadores em estúdio enquanto que 12 contaram com o input de personalidades chamadas para o efeito. No dia da goleada à equipa coreana, foram chamados a estúdio 24 convidados, todos do sexo masculino, a quase totalidade oriunda da Grande Lisboa (20) e a maior parte (75%) com ligação directa ao futebol. Na sua grande maioria (58%), os convidados foram jornalistas especializados em desporto.

Ao nível da integração de outras plataformas, o único registo dessa inclusão nas 25 emissões é o À Noite o Mundial da RTPN.

Portugal X Brasil

Apesar de inicialmente ser considerado o desafio de maior cartel para a primeira fase da prova, o jogo entre Portugal e Brasil foi aquele que teve menos emissões de antevisão e rescaldo (23).

Na linha daquilo que já tinha acontecido no dia do jogo com a Costa do Marfim, também neste 25 de Julho o número de emissões com a presença de convidados foi superior ao número de emissões desenvolvidas apenas com o pivot em estúdio. Das 23 emissões televisivas do dia do confronto entre as equipas de Carlos Queiroz e de Dunga, apenas 9 não contaram com a presença de qualquer convidado.

Foram 27 as pessoas que passaram pelos canais televisivos para falar do Portugal X Brasil que fechou o Grupo G do Mundial 2010. Desse lote, destacam-se os jornalistas que, em linha com o verificado em anteriores dias de jogo, foram a classe mais requisitada para falar sobre esse e outros jogos da competição (18). Tal como no jogo anterior, todos os convidados eram homens e a grande maioria (20) com uma ligação profissional ao tema em debate.

Tal como nas restantes análises, também neste dia o telespectador ficou afastado da emissão. Em apenas 4 das 23 emissões estudadas foram abertos canais de participação para o telespectador. Neste dia, voltou a haver apenas um registo de integração de novas plataformas e, mais uma vez, a responsabilidade por essa ocorrência pertence ao À Noite o Mundial.

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A voz do telespectador continua longe da África do Sul

Junho 28, 2010

A última sexta-feira marcou o final da fase de grupos do Mundial de Futebol da África do Sul. Para além disso, marcou também a segunda semana de análise das emissões televisivas desenvolvida pela equipa do projecto “Jornalismo e Cidadania”, que está a estudar a participação dos telespectadores nos conteúdos dedicados ao Mundial. De uma semana para a outra, os dados obtidos são semelhantes. Os canais apostaram, praticamente, nos mesmos formatos e repetiram grande parte dos intervenientes nas discussões em estúdio. O telespectador continuou fora de jogo…

Assim, a nossa análise estende-se agora entre as 15h de 11 de Julho de 2010 até ao final da noite de 25 de Julho de 2010. Continuamos a olhar para todas as emissões informativas dos três canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) e para os programas de participação do telespectador e dedicados exclusivamente ao Mundial dos canais temáticos de informação (SIC Notícias, RTPN e TVI 24). Em relação à anterior análise, o universo de investigação aumentou em 152 emissões, totalizando agora 300 emissões estudadas.

O adepto não entra na discussão…

As opiniões dos telespectadores são quase inexistentes no universo dos programas informativos do panorama televisivo português. Nas 300 emissões estudadas, em apenas 48 houve lugar para a participação do telespectador, normalmente através do telefone (nos programas do tipo “fórum” dos canais temáticos) ou de e-mail (nos fóruns, mas também em alguns espaços de discussão à noite, como o À Noite o Mundial, da RTPN).

… e o convidado entra, mas pouco

Em relação aos convidados, os números apontam para uma maior abertura, mas esta não é excessiva. Nas 300 emissões analisadas, em 202 não houve lugar para a presença de qualquer convidado em estúdio. Tal como referimos na semana passada, a este facto não deve ser alheia a preferência dos canais portugueses pelos noticiários onde apenas tem lugar o pivot. Quando a emissão se abre aos convidados, o mais habitual é a presença de apenas um. Os dados mostram que em 50 por cento dos casos a escolha recai apenas sobre um convidado, por norma um comentador residente no canal, que faz a sua leitura dos mais diversos aspectos do Mundial. O programa Prós e Contras (RTP1) do dia 14 de Junho continua a conter o único registo com participação de mais de dez convidados, ao passo que conteúdos como o Mais Mundial da TVI 24 são exemplos de cenários que se compõem com um número de convidados entre os 2 e os 5.

Os plateaux não se enchem de gente do desporto

É verdade que a maior parte daqueles que vêm a estúdio tem uma relação com o mundo do desporto, mas a maior parte deles não são desportistas. Uma percentagem muito significativa dos convidados são jornalistas/comentadores. O grupo das pessoas do campo do desporto (futebolistas ou ex-futebolistas, dirigentes desportivos, treinadores ou praticantes de outras modalidades) perfez, nestes dias, 39 por cento dos convidados. À semelhança da primeira semana da nossa análise, os homens continuam a ter prioridade quase absoluta. E quem mora em Lisboa tem sempre mais oportunidade de dizer o que pensa.

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Atrás do Mundial de Futebol

Junho 18, 2010

O projecto “Jornalismo e Cidadania” vai andar, por estes dias, atrás dos programas de informação que falem do Campeonato do Mundo de Futebol da África do Sul. Queremos, acima de tudo, saber quem são os convidados dessas emissões e que estratégias aí são desenvolvidas para integrar o telespectador nos alinhamentos construídos.

Começámos a nossa análise no dia 11 de Junho de 2010, às 15h00 (momento de arranque da prova), e fizemos o primeiro ponto da situação, tendo em conta a programação emitida até às 15h00 do dia 18 de Junho de 2010. Nos canais generalistas (RTP1, SIC e TVI), procurámos analisar todos os programas de informação. Nos canais temáticos (SICN, RTPN, TVI 24), detivemo-nos nos formatos temáticos de futebol e nos formatos generalistas (fóruns de discussão), quando as respectivas emissões se centraram neste desporto. A nossa análise totalizou 148 emissões.

Esperávamos mais abertura à participação do público. Mas ainda vamos na primeira semana do Mundial…

Telespectadores excluídos da TV do futebol

Embora feitos para captar o interesse do público, a verdade é que os telespectadores continuam fora dos alinhamentos dos programas de informação que têm o Mundial de Futebol como mote. Das 148 emissões analisadas, apenas 23 integram quem vê televisão e quer participar. Destacam-se aqui os habituais programas que abrem completamente a emissão aos telespectadores (através da participação por telefone, por exemplo) e aqueles que prevêem a participação por outros meios (blogues, mails, entre outros), como é o caso de À Noite, o Mundial (RTPN). O e-mail e o telefone são os meios mais utilizados.


Plateaux sem convidados

Grande parte dos programas do Mundial não tem um formato aberto a convidados. O mais habitual é encontrarmos apenas o apresentador em estúdio. Sozinho. A preferência pelo género noticiário e por emissões de curta duração pode ajudar a explicar esta ausência de convidados em mais de 68% das emissões informativas. Há apenas uma excepção a esta tendência de não trazer ninguém a estúdio ou apenas trazer um convidado (16.9% das emissões): o Prós e Contras da RTP1 que, no dia 14 de Junho, debateu o futebol com mais de uma dezena de convidados.

Quem tem acesso aos plateaux dos programas que falam do Mundial?

* Jornalistas/analistas, ex-futebolistas e treinadores são as categorias profissionais mais solicitadas para participar em programas de informação sobre o futebol. As restantes categorias são em número reduzido.

* Grande parte dos convidados que vêm a estúdio falar de futebol têm uma ligação profissional ao próprio campo. Apenas 16.4% das pessoas têm profissões sem relação directa com o desporto (são escritores, actrizes, autarcas…).

* São, sobretudo, masculinas as vozes que falam de futebol: 95.6% dos convidados são homens. O discurso feminino é muito residual e pertenceu, neste tempo, às seguintes mulheres: Ana Candeias, Inês Pedrosa, Judite França e Patrícia Tavares. A TVI foi o canal que, em tempos de transmissão de futebol em canais concorrentes, valorizou a presença feminina em estúdio.

* Mais de metade dos convidados (64.8%) são oriundos da zona da Grande Lisboa; 27.4% são do norte. Quem vive no resto do país tem um acesso limitado aos plateaux do futebol

A progressiva visibilidade dos cenários virtuais

Os campeonatos de futebol constituem-se, por norma, como excelentes oportunidades para as televisões ensaiarem novas formas de dar a ver a informação desportiva sobre estes eventos mediáticos. Neste Campeonato do Mundo de Futebol, não têm havido propriamente surpresas ao nível da forma. No entanto, as empresas televisivas têm experimentado pôr no ar os seus programas em cenário virtual. É claro que temos de reconhecer que a maior parte das emissões continua assente em cenários reais, mas o estúdio virtual começa a ocupar um espaço cada vez maior no ecrã de TV, principalmente nos canais temáticos de informação.

Novas tecnologias afastadas do Mundial

O advento das novas tecnologias poderia significar um reconhecimento de novas plataformas para a emissão de conteúdos. No entanto, aquilo que se verifica é um fechamento dos programas de informação às novas plataformas digitais. Em 148 emissões estudadas, apenas 9 efectuaram esse cruzamento com plataformas digitais. Neste campo, convém destacar o À Noite o Mundial, da RTPN, como o conteúdo informativo que mais longe vai na integração destas novas possibilidades comunicativas no alinhamento da sua emissão.